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O Sonho do Big Hit

15 de maio de 2019 | Being a player Poker tips

Com o SCOOP chegando é natural que a ansiedade aumente, afinal, serão vários dias com torneios com excelentes premiações e como de costume contaremos com a presença dos melhores do mundo.

Consciente ou inconsciente, todos os jogadores estão pensando no big hit, alguns pensando o que fariam com o seu primeiro, outros querendo mais um para jogar mais caro, alguns querem apenas sair do make- up, enfim, mesmo que por um breve momento, o big hit passa pela cabeça de todo jogador.

Em 2013 tive a sorte de ganhar um SCOOP e um premio de 6 dígitos pela primeira vez; usei a palavra “sorte” pois era meu segundo ano no poker e provavelmente eu não tinha capacidade para bater os torneios que jogava. Meses depois dei uma entrevista ao site pocket fives (Confere Aqui!) e dei minhas impressões sobre big hit e o que isso pode mudar na carreira.

Hoje, 6 anos depois, posso garantir que meu pensamento quanto a isso mudou, não em relação ao fato da mudança que ocasiona em sua vida, mas em relação a busca incessante e ilusória pelo próximo grande prêmio. Na época meu pensamento era 100% poker, logo , todo pensamento sobre o que fazer com o dinheiro só era voltado ao poker, ou seja, quais torneios mais caros eu poderia jogar, qual próximo grande evento internacional eu poderia participar e assim por diante. E a sensação é gostosa, com 22 anos , aquele prêmio em mãos e o sentimento de estar no auge do meu jogo, imbatível, aquela sensação de que já dominava o jogo com maestria e que até meus coaches (mil vezes mais experientes que eu) já não compreendiam o jogo como eu compreendia. É, o ego do jogador de poker é algo que deve ser estudado…

Não foi preciso muito tempo para que a realidade viesse à tona e obviamente uma “downswing” começou, mas a grande questão é que não era uma downswing da variância do jogo, era apenas um regular fraco jogando jogos que não tinha condição nenhuma de jogar, mas que tinha um ego tão inflado que não tinha relevância alguma o que outras pessoas mais experientes aconselhavam , e eu teria que descobrir por conta própria. Os torneios do dia-a-dia não tinham mais tanta graça e então fiquei por meses jogando nos piores dias com os torneios mais difíceis; aquela confiança que parecia interessante no começo cobrou o preço, passei a jogar menos e, o pior, estudar muito menos. Foi só quando apertou financeiramente que voltei a realidade e voltei a trabalhar de verdade, estudar de verdade e me internar novamente no que realmente interessa e não no caminho (ilusório) mais fácil.

Ganhar um grande prêmio abre portas dentro e fora do poker, não há como negar, mas posso afirmar, empiricamente, que todos os que conheci até agora que tinham como grande objetivo um big hit falharam. Grandes resultados não vem de um pensamento positivo bobo e esperançoso, nem da manteiga ghee no café da manha, ou do café bulletproof, eles aparecem pra quem senta a bunda e joga. E o mais interessante é que talvez você jogue por 8-10 anos de dedicação total, trabalho duro e estudo apurado e não tenha um premio expressivo (algo bem normal), mas as portas que citei anteriormente vão se abrir também para quem faz um trabalho bem feito, o big hit é apenas um facilitador.

Gosto de fazer uma comparação com advogados nesse sentido do big hit; um advogado que começa um escritório deve sair à procura de clientes e aos poucos vai aumentando sua rede de contatos e sua carta de clientes, vez ou outra, é claro, ele tenta um cliente bem maior do que os que atende normalmente e raramente consegue fechar algo ou trazer esse cliente para o escritório, afinal, é um cara inexperiente ainda. Mas, em alguns casos, em geral por algum contato externo ou por pura sorte de estar no lugar certo na hora certa, acaba conquistando um cliente gigante e a partir disso algumas portas novas irão se abrir, o escritório pode aumentar, existe dinheiro em caixa agora para contratar bons funcionários e assim por diante. Só que se esse advogado ao perceber o conforto que pode trazer ter apenas clientes gigantes começar uma caçada de clientes com potencial enorme e deixar para trás ou mal cuidados aqueles que ele tinha anteriormente, o fim será triste.

Enfim, não existe fórmula mágica, todos os jogadores admiráveis que temos hoje no Brasil (por óbvio, não me incluo nesses) são caras que trabalham e estudam que nem loucos e são fissurados no jogo; alguns tem big hit, outros não, e isso não muda nada no ponto de vista da admiração e do respeito.

Luciano S. de Hollanda.

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