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Downswings e Variância no Poker

3 de julho de 2019 | Poker news

Salve galera! Tudo certo com vocês? Hoje vim falar um pouco sobre a minha visão de downswings e variância no Poker.

Pra começo de conversa, o que é uma downswing? 

Downswings são períodos onde acumulamos percas significativas e constantes dentro do Poker. É muito importante ressaltar que qualquer jogo/atividade que envolva probabilidades teremos a ação da variância influindo diretamente nos nossos resultados, sejam eles positivos ou negativos. A distribuição de cartas dentro do Poker é completamente aleatória e poderá se desviar da distribuição”normal”, principalmente em curtos períodos de tempo ou em volumes menos significativos. Assim sendo, a tendência de toda downswing e/ou upswing é se normalizar no longo prazo.

 

Eu estou muito azarado? Eu estou jogando mal? Ou será que estou azarado e jogando mal?

Acredito que por melhor que você seja tecnicamente, por melhor que seja o seu table selection, o seu “mindset” dentro do Poker ou a sua win rate, você dificilmente vai escapar de ter alguma downswing na sua carreira (principalmente se você for um jogador de MTT’s). Os fatores supracitados ajudam (e muito) a reduzir o impacto e/ou a duração da sua downswing, mas dificilmente evitarão que ela aconteça. Eu costumo relacionar as downswings no Poker a um efeito bola de neve que acontece da seguinte maneira, mas não necessariamente nessa ordem:

  • O Jogador começa a perder a confiança in game e duvidar das suas decisões;
  • Com isso passamos a fazer jogadas que não deveríamos fazer, desviamos do nosso game padrão na tentativa desesperada de evitar/afastar as swings negativas;
  • Consequentemente, tomando piores decisões in game, nossa win rate diminui e nosso retorno é fortemente impactado pelo enfraquecimento do nosso processo de tomada de decisões;
  • Com a nossa habilidade de tomar decisões enfraquecida, a falta de confiança, a influência (ou não) do azar na aleatoriedade das cartas e o nosso lado psicológico abalado, a bola de neve não para de crescer e o “estado de downswing” está permanentemente instaurado. Lembrando que esse processo todo pode sempre ser agravado pelo Tilt.

 

Modelo Kubler-Ross e sua aplicação ao Poker

Há alguns anos atrás assisti um vídeo do James Hudson no Run It Once sobre downswings, onde ele faz uma analogia muito interessante da variância com o Modelo Kubler-Ross da psiquiatra suíça Elisabeth Kubler-Ross, que propõe uma descrição de 5 estágios pelos quais as pessoas passam ao lidar com perda, luto e tragédia.

  1. Negação – Aquele clássico “Isso não pode estar acontecendo”, ou o “Não acredito que seja verdade” ou ainda o “Esse jogo não existe”, são todas frases clássicas do ponto da negação da downswing no Poker.
  2. Raiva – O passo seguinte são os sentimentos de raiva, é onde o Tilt finalmente toma conta do nosso jogo. Pensamentos como o “Isso não é justo”, ou o “Porque isso está acontecendo logo comigo?” tomam conta da nossa mente e nos imergem no mais profundo sentimento de raiva em relação ao jogo.
  3. Barganha – O terceiro passo do modelo traz o clássico momento de barganha, onde começamos a pensar “Só quero ganhar esse flip”, ou “Será que não vou ganhar nenhum flip nesta sessão?”, e assim inconscientemente tentamos barganhar com a nossa própria sorte uma trégua no momento ruim, para quem sabe conseguirmos chegar ao fim das nossas swings negativas. (Há!!! Quem dera essa barganha realmente fosse possível!)
  4. Depressão – Depois de tentar a barganha e (obviamente) falhar vamos para o estágio depressivo. Neste ponto nosso jogo já está profundamente afetado pelo tilt e somos completamente dominados pela tristeza. O pensamento de que agora nada mais adianta e nossas ações já não importam mais conseguem trazer nosso jogo para o pior nível possível.
  5. Aceitação – Ao fim de todo esse calvário, chegamos na parte da aceitação. É aqui que nossa cabeça começa a retomar a consciência e iniciamos um processo mais racional através de uma análise mais fria dos fatos. Começamos a entender conscientemente que a variância existe no Poker, que ela afeta todos jogadores, e principalmente que a fase ruim é algo transitório. Ao obter essa compreensão, conseguimos começar a focar nas coisas que realmente importam para a evolução do nosso jogo e no que de fato podemos fazer para vencer o momento ruim.

Enfrentando a Downswing

Para definirmos a melhor estratégia para enfrentar uma downswing, acho interessante  listar os fatores que influem diretamente na sua duração/profundidade. Dentre eles estão:

  • Manter o “A” Game a todo instante: Conseguir manter o foco após tomar aquela bad beat, ou em sessões que estão sendo muito dolorosas é fundamental para obtermos bons resultados no Poker.
  • Se acostume com as oscilações de stack nos torneios: Frequentemente percebo como os jogadores tiltam facilmente por este motivo. Ouso dizer que é praticamente impossível ganhar um torneio se mantendo SEMPRE na mesma faixa de stack. As oscilações são completamente naturais ao longo de um torneio e temos que nos habituar a isso. Vamos começar com 100/150 bbs, as vezes dobramos no início e ficamos gigantescos, as vezes ficamos short. Muitas vezes passamos muito tempo do torneio com um stack gigante ou muito tempo short stack. São tantas idas e vindas que, se formos nos desestabilizar a todo instante com esta oscilação dificilmente conseguiremos performar em alto nível.
  • Atividades que geram satisfação pessoal: É importantíssimo que tenhamos atividades off-poker para momentos de relaxamento. Estarmos “de bem” com a vida é parte imprescindível para um bom desempenho dentro do Poker. Obviamente é importantíssimo estudar, ter uma rotina profissional, praticar exercícios regularmente, ter uma dieta balanceada, etc, mas muitas vezes subestimamos a importância de simples atividades que nos geram satisfação pessoal, como assistir um jogo de futebol com os amigos, tomar uma cerveja, ir ao cinema ou simplesmente uma boa refeição em família. Passar tempo com as pessoas que amamos é tão importante quanto todos os outros fatores que nos fazem performar dentro do Poker.
  • Importância de um Setup/Ambiente: Outro tema subestimado na compreensão das downswings é este. Acredito que o fato de você ter uma boa internet, um bom computador, bons periféricos, uma boa cadeira e um bom fone, além de grindar em um ambiente “clean”, tranquilo e bem organizado vai te dar uma grande vantagem em relação aos seus adversários. Em um mundo tão competitivo como o do Poker hoje em dia, acredito que qualquer edge seja essencial para o sucesso.
  • Foco vs Redes Sociais: Essa é clássica. Parece até um pouco de encheção de saco daquelas de mãe. Mas como sua mãe já te falava, gosto de repetir aqui: Isso é pro seu bem! É praticamente impossível ter o mesmo desempenho no grind quando se está focado e quando estamos dividindo nossa atenção do grind com as redes sociais e/ou apps de comunicação. Não é especulação, é fato! Nós funcionamos melhor quando estamos 100% focados em uma atividade. Por isso, coloque uma boa música e preste atenção nas suas telas!
  • Fatores externos: Aqui gosto de citar alguns pontos que não estão diretamente ligados ao Poker, mas que ainda assim impactam no nosso desempenho. Bons hábitos vão sempre gerar bons resultados (dentro ou fora do Poker), então cuidados com a saúde, boa alimentação, atividades físicas regulares, noites de sono bem dormidas e não estar grindando de ressaca (para os baladeiros de plantão) são coisas que também vão te dar alguma vantagem para sua evolução in game.
  • Se esforce MUITO fora das mesas: Mantenha uma rotina de estudos intensa! Analise mãos, use softwares de apoio, assista videos, leia artigos, esteja em contato com uma comunidade que busca os mesmos objetivos que você. Tire suas dúvidas com jogadores mais experientes, escute o que eles tem pra lhe falar. Certamente tudo isso também vai agregar muito à sua evolução.

 

Calibrando a Confiança

A confiança é importantíssima dentro de qualquer atividade/esporte que o ser humano pratica. Trazendo para exemplos práticos podemos fazer um paralelo com grandes jogadas esportivas. Quem nunca viu aquele arremesso de 3 pontos no estouro do cronômetro para conquistar uma vitória na NBA? Ou aquela jogada individual, com aquele drible desconcertante no final de uma partida de futebol que resulta no gol da vitória? Todos esses atletas que vemos conquistando feitos históricos estão repletos de autoconfiança e no Poker é a mesma coisa! Temos que estar confiantes no nosso jogo, na nossa capacidade de tomar decisões e em toda preparação que tivemos para estar ali naquele momento!

Ainda fazendo um paralelo com outros esportes, acredito que podemos relacionar a recuperação de uma downswing e de um estado de tilt a recuperação de uma lesão de um jogador de futebol, por exemplo. O atleta que volta de uma lesão está sempre buscando ritmo de jogo, buscando a confiança necessária para voltar a atuar no seu melhor nível fisicamente. Quando buscamos uma evolução em nossa downswing, estamos buscando justamente isso, a retomada da nossa confiança, do nosso ritmo de jogo e da nossa melhor forma psicológica! Lembrem-se que a confiança é basilar, juntamente com a fundamentação teórica na  pirâmide estrutural supracitada neste artigo. Esses dois pontos aliados a disciplina e a nossa criatividade nos tornam jogadores de alto nível.

 

Diminuindo a Variância

Existem algumas coisas que podem nos ajudar quando buscamos reduzir a variância do nosso jogo, e aqui estão algumas delas:

  • AVG Buy-In: Em tese quanto mais barato os torneios que jogarmos, mais fácil será o field que estamos enfrentando, aumentando significativamente nosso retorno de investimento. Assim sendo, a primeira coisa que você deve considerar para diminuir a variância do seu jogo é a redução dos buy-ins jogados;
  • AVG Field: O tamanho do field também é muito impactante quando falamos sobre variância. Em fields menores teremos menos situações de all in pré flop, menos decisões e menos adversários. Consequentemente vamos ser capazes de chegar as maiores premiações dos torneios com mais frequência. Uma ótima ideia neste ponto é buscar grindar em horários alternativos, pois geralmente enfrentamos fields reduzidos;

Aliando fields e buy ins menores, aumentamos muito nosso ROI e conseguimos diminuir consideravelmente o impacto da variância no nosso jogo. A busca por horários alternativos, bem como salas alternativas também visa enfrentar jogadores piores e menos qualificados, ponto que também acarretará no aumento do nosso ROI/diminuição da variância do nosso game.

  • Controle do Tilt: No momento que conseguimos retomar o controle da nossa mente que estava em estado de tilt estamos dando o passo mais significativo para estabilizar nossa fase ruim. O Poker é um esporte mental e controlar nosso inconsciente juntamente com nosso consciente é a chave para o sucesso.

 

Considerações Finais e resumo da ópera

  • Opte por fields menores;
  • Escolha melhor seus buy-ins e seja meticuloso no seu table selection;
  • Busque sites alternativos;
  • Busque horários alternativos;
  • Mantenha seu psicológico em forma;
  • Pense MUITO nas suas decisões;
  • Desenvolva o hábito de escutar as pessoas ao seu redor e converse com jogadores mais experientes;
  • Tome o seu tempo;
  • Estude e trabalhe MUITO também fora das mesas;
  • Diminua a duração das suas sessões e jogue mais vezes;
  • “Não consigo controlar a variância!” Então foque em controlar os fatores que podemos controlar!

NÃO DEIXE A BAD RUN SE TORNAR UMA DESCULPA PARA JOGAR MAL!
Lembrem-se sempre de que não existe uma fórmula mágica no Poker. Existe trabalho duro, persistência, determinação e foco total em tomar sempre as melhores decisões.

Caio Almeida.

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